
A Tetralogia de Fallot é uma combinação de anomalias cardíacas que abarcam um defeito importante no tabique ventricular, um nascimento anormal da aorta que permite que o sangue desprovido de oxigénio flua directamente desde o ventrículo direito até ela, uma redução do orifício de saída do lado direito do coração e um aumento da grossura da parede do ventrículo direito.
Parece simples, alguns imaginarão deve ser complicado tratar, outros “porra” que merda deve ser do caraças corrigir esta cena.
Quero-vos contar como foi no dia, 28 de Julho de 1980, mas antes um pouco de cultura geral:
Os meninos com Tetralogia de Fallot costumam ter um sopro cardíaco que se ouve no momento do nascimento ou pouco tempo depois e que mesmo depois de operados não se livram dele para o resto da vida (coisa porreira, ter um sopro). Têm uma cor azulada (estado denominado cianose) porque o sangue que circula pelo corpo não está suficientemente oxigenado. Porreiro ter os lábios e as unhas azuis, então os comentários do pessoal (olha a menina de lábios e unhas pintados) – Foda-se um gajo já tem a vida num caos ainda por cima os imbecis passam a vida a gozar-nos.
Esta “cena” sucede porque a estreita passagem da saída do ventrículo direito restringe a passagem do sangue para os pulmões e o sangue azulado desprovido de oxigénio que se encontra nele atravessa o septo defeituoso, passa para o ventrículo esquerdo e entra na aorta para começar a circular pelo corpo, e tinha que ser logo Azul, sangue REAL.
A correcção do problema foi uma coisinha simples, durou apenas 14 horas, começaram eram oito horas da manhã, primeiro todos os preparativos de anestesia, depois toda a parafernália de instrumentos, bisturi para fazer um corte por todo o tórax, abri-lo e expôr o coração para reparar o defeito do septo ventricular abrindo a estreita passagem do ventrículo direito e a estreita válvula pulmonar, assim como o encerramento de qualquer ligação artificial entre a aorta e a artéria pulmonar.
Tudo normal, mas antes de voltar a colocar tudo no sitio era necessário restabelecer a circulação sanguina sem ajuda das máquinas e o pulmão esquerdo não aceitou lá muito bem o novo sangue e resolveu fazer um bloqueio que levou a uma paragem cardíaca de 35 segundos, após os quais e graças ao esforço da GLORIOSA equipa do Hospital de Santa Marta chefada pelo Prof. Dr. Machado Maçedo assistido pelo Dr. Rui Bento e pelo Dr. Serra lá voltou de novo a bater até hoje.
Passados os momentos de pânico, tudo volta ao normal e por volta das 10 da noite, lá sai o menino, cheio de tubos por todo lado, fios a máquinas por outros tantos, de tal forma que a minha mãe que esperou anciosamente para me ver, na hora H, perdeu e coragem e não conseguiu chegar mais perto que uns míseros 3 metros.
A ela por tudo, ao meu pai que em silêncio e à distância deve ter sofrido horrores, ao tio João e à tia Ana Bela que a acompanharam o mais que lhes foi possível ficam os meus 28 obrigados de vinte oito anos de uma nova vida. A ti um beijo de saudade pelas vinte e duas comemorações especias deste renascimento.